21.11.09

eu e a helena

eu e a helena
a descer de costas para o tamisa
(os carros quase nos atropelaram insistindo em vir em sentido contrário)
eu e a helena
a descer rapidamente de costas para o rio, lá ao fundo
eu e a helena buscando refúgio na igreja da abadia que há perto do rio -- mas nós não íamos juntos --
fechados, eu comovido até às lágrimas,
parvamente, por causa de tantos nomes ilustres
e ela a dizer-me que havia ali demasiados mortos e que sufocava
eu e a helena não no centro do mundo -- pois que não há --
mas num umbigo do mundo
com a história a pulsar por todos os respiradores que saem do chão
(como em nova york mas sem fumo)
com todas as raças de todos os catálogos, todas as línguas que começaram em babel,
vendendo de tudo e comprando de tudo -- só não a alma que se não pode por estar colada ao corpo.
na confusão de ser quase nada ou simplesmente "um sonho sonhado por alguém"
eu e a helena
depois de a ter procurado e desistido de a procurar e depois encontrado num corredor, de um hotel, sem começo nem fim.
(e nem correu para mim nem eu para ela, antes esperámos que nos aproximassem os passos)
sem saber falar mais a nossa língua,
atrapalhado, sem conseguir contar as peripécias da viagem de quem nunca gostou de viajar por ser alheio a toda a forma de curiosidade e quando viajou foi só por paixão.
(houve um tempo em que ela me olhava como se eu fosse o único, eu, o único, pobre de mim que sei da minha miséria como ninguém da sua)
eu e a helena sem a helena e sem mim
em londres
os dois a dizerem-se, desajeitadamente, cada um à sua maneira, a Deus.

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