11.5.06

Paulo

A primeira vez que dormi com ele foi em Valença. A segunda em Vila Nova de Famalicão. Em Ourique disse-me que não. Podia ter dito: " Sabes, eu gosto muito da Rita", e eu dir-lhe-ia que tudo isso estava muito certo, que estávamos muito cansados, que o melhor era irmos dormir de seguida sem sequer tomar café, que não fazia mal, que aquilo ali era outro planeta qualquer. Mas ele disse: "Sabes, eu tenho a Rita.
Eu não disse nada, senti uma grande raiva crescer dentro de mim, vontade de lhe bater e depois nada disso. Comecei a ficar triste. Disse: "Vou pedir ao rapaz da luz que cuide de mim", sem qualquer convicção. Ele só baixou os olhos e não respondeu. Não tomei café.

Os nossos quartos ficavam um em frente ao outro. Pensei primeiro em bater à porta dele e depois abri a minha. A cama estava feita e vazia. Não tive coragem de a abrir. Voltei para trás e abri a porta do quarto dele. Estava escuro, não se via nada. Mas ele devia estar a ver-me em contraluz. Não sei sequer se disse para eu entrar. Sei que deixei ficar a porta aberta para o corredor e que de repente me senti agarrada. É bom uma pessoa sentir-se agarrada assim no escuro sem ver por quem. Fizemos amor no chão. Fiquei com uma marca nas costas. Com a porta aberta. Sou tão descuidada, meu amor.


Pedro Paixão
in A noiva judia

4 comments:

INDIGENTE ANDRAJOSO said...

:)

CARMO said...

excelente passagem.

Klatuu o embuçado said...

Desta obra, eu curto é aquele episódio de engate metafísico frustrado no barco prá outra banda do Tejo... o leitor fica convicto que o autor, além de ser meio tonto, andou de barco! :)=

lena said...

lol

mas eu não sou dessa história
;)