4.2.14

Helena, por quem os gregos se bateram

A Helena veio ontem visitar-nos. Telefonou do carro a dizer que vinha a caminho e trouxe o namorado. A Helena que eu não via há muito tempo por preguiça, medo, coisas árduas de lembrar, mal chegou tirou os sapatos e colocou-se em várias posições sobre os sofás da sala enquanto tocava nos assuntos mais diversos.
"A vida é uma coisa muito bonita que se estraga facilmente, tu não achas? Tens visto o nosso amigo João Luís?"
O João Luís há três anos que está fechado em casa, os estores corridos para não saber se é noite ou se é dia. Desde que caiu no patamar das escadas e partiu a mão nunca mais tocou um instrumento. Acredita que no céu vai poder mostrar todas as suas potencialidades. Deus queira.
"Tudo acabou como não devia. Foram sete anos só a viver para aquilo. Foi bom o tempo que dura uma nova paixão, uns seis meses. Depois é um inferno que tu não queres largar nem por nada. Quando entrei na clínica ia a ressacar, era a única, os outros tinham todos tomado a dose da manhã. Hás de me escrever uma canção, que eu quero subir ao palco outra vez. Ouviste?"
E pergunta-me pelo meu irmão Emmanuel que explodiu em casa depois de sete anos a tomar má heroína em vários estabelecimentos prisionais espalhados pelo país. Eu lembro-lhe de há muitos anos ela não me querer senão para chofer e, quando muito, amante ocasional.
"Sobreviver ao sucesso foi mais difícil do que tudo. De resto faço Chi Kung três vezes por semana como uma imperatriz da china imperial. Tu também não estás com mau aspecto. Não tomo comprimidos, detesto todos os químicos e nem quero microondas em casa."
A bela Helena, por quem os gregos se bateram, trazia o cabelo curto, os olhos cansados de ver coisas muito duras de se ver e tinha engordado alguns quilinhos espalhados pelo corpo. O que fazer quando deus nos deu um só talento assim tão grande e não se pode trabalhar?
Não sei o que vai acontecer. Por vezes penso que é bom poder voltar mais uma vez à superfície desta terra e adormeço tão suavemente que nem me dou conta de que partiram.


Pedro Paixão
Nos teus braços morreríamos, 98

15 comments:

AmigaTeatro said...

Este texto conheço eu bem…
Como disse no comentário anterior, li “Nos teus braços morreríamos” recentemente…
E sobre este pequeno grande texto, nem me atrevo a comentar…

;)***

lena said...

(mas aqui está editado...
8)

AmigaTeatro said...

Deixo para trás todos os livros que tinha, até à data, para ler e entrego-me ao “Ladrão de Fogo”, que comprei hoje.

São muitos os livros que desejo comprar, mas cada um a seu tempo… hoje fui para comprar “O amor é fodido” de Miguel Esteves Cardoso, mas, ao que parece, estava esgotado. Bahhh…

Levei este, então, que também o queria há algum tempo.


Lena,
Sobre este não tens nada a dizer?

Apenas li a contracapa que diz: “ «Tornei-me invisível. Em primeiro lugar para mim próprio. Em particular os últimos dez anos não sei para onde foram. Agora já posso contar tudo.»
Ladrão de Fogo é um texto relâmpago que mata e mói, forte como a verdade, doce como a mentira e trágico como o amor urgente. Pedro Paixão surpreende sempre e mais numa narrativa para ler e reler.”

Beijo*

lena said...

não li, querida, depois trazes-mo para eu dar uma espreita
;)**

AmigaTeatro said...

Sim, eu depois levo-te o livro para que possas dar uma espreita! lol =)*

Peguei no livro ('Nos teus braços morreríamos') e, em relação a este texto, reparo, agora, na 'pequena' alteração que fizeste... ;)***

lena said...

;)

sónia said...

Vim aqui ter..e nem sei o que escreva. Parece-me um encontro improvável e, no entanto, faz todo o sentido. Pedro Paixão é o que costumo chamar de "meu guru", devoro cada linha dos seus livros há já uns anos. Nos seus livros há muito das minhas vivências. Por outro lado, cresci a ouvir a Lena d'Agua, sempre "invejei" a sua postura perante a vida, uma mulher que admiro: com força, garra e que canta com alma. Amei o espectáculo onde canta Billie Holiday.
Feliz encontro este!

lena said...

fico contente, ao_sul :)*

ali em baixo, na maldade do mundo, está o nosso encontro (aquário/gémeos de 56) visto pelo pedro

falta-me escrever a minha versão
;))

Adryka said...

Lena gosto muito de ti, sou ^fã de toda a tua familia, fiquei feliz por te descobrir. Beijinhos

Menina_marota said...

Por paixão... tanta coisa se faz...

Deixo um abraço carinhoso e bom domingo ;)

lena said...

adrika, o mundo é pequenino, a gente encontra-se mesmo sem procurar ;)

marotinha :)**

taniaber said...

eh engraçado komo me sinto cd vez ke venho a este blog....!:)
querida lena: n sei o ke dizer kom tamanha grandiosidade...ES MARAVILHOSA!
pedro: continua a ser o escritor espectacular ke tens sido...n sei o ke seria de mim sem os teus livros...bjs vossa sempre companheira nas horas mais aborrecidas: tania***

Egrégora said...

Podias por em comentario o pedacinho de texto não editado :)

Ou entao a amiga-teatro podia fazer o jeitinho, ja que tem as obras ;)

lyra said...

(shhh faz de conta que não estive cá. Só levei as palavras coladas aos olhos)
***

lena said...

***:)